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Estaremos nos tornando replicantes?

25 de Novembro de 2010

Não sou dos mais entusiasmados por ficção científica, mas gostei bastante de Blade Runner, considerado por muitos como uma das melhores fitas do gênero.

Havia no filme personagens denominados replicantes, espécies de robôs idênticos aos seres humanos, capazes de enganar a todo mundo. Tinham tudo igual, mas eram desprovidos de sentimentos.

Tenho me lembrado constantemente dessas figuras devido ao comportamento cada vez mais gélido das pessoas, diante dos maiores absurdos.

Na semana passada, por volta das nove horas da noite de um sábado na rua Haddock Lobo, próximo à Lorena e, diante de várias pessoas, entre elas clientes, manobristas e  seguranças dos restaurantes, um casal amigo foi abordado por um marginal de revólver em punho exigindo relógio, carteira, bolsa, etc.

Ninguém moveu uma palha, era como se a cena não existisse. E continuou sem existir mesmo depois do assaltante ter ido embora.

Além de Blade Runner tem-me vindo à mente duas extraordinárias composições, sendo uma de Chico Buarque “Construção” e outra de João Bosco e Aldir Blanc, “De frente pro crime”. A primeira diz que o operário (que em versão contemporânea poderia ser representado por um moto-boy) “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

e a outra que “tá lá o corpo estendido no chão…veio o camelô vender anel, cordão, perfume barato, baiana prá fazer pastel e um bom churrasco de gato”.

Ambas ressaltam a banalização da vida, embora, naquela época, os crimes fossem mais raros e a crueldade bem menos presente.

Hoje, apesar de nosso tão decantado desenvolvimento, a situação dá a impressão de estar fora de controle e, que me perdoem os paulistas, a incidência de assaltos em São Paulo parece estar maior do que no Rio. A diferença é que o Rio é menor e a divulgação do que lá acontece, ecoa com mais estardalhaço. Porém, vários amigos que, como eu, transitam entre as duas cidades já foram assaltados na capital paulista e, na capital fluminense, não.

O que nós, das gerações mais velhas, ainda podemos fazer para encontrar a saída? Será melhor jogar a toalha? Estaremos para sempre em sinuca de bico?

Enquanto não conseguimos as respostas, as novas gerações vão aprendendo a viver, nesse estado de coisas, com a naturalidade de quem não conheceu outra realidade.

E todos nós seguimos sublimando nossas emoções, reprimindo nossas reações, desviando o olhar, tapando os ouvidos, prendendo a respiração, vestindo a carapuça, transformando-nos pouco a pouco nos replicantes de Blade Runner.

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